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Crítica | Entrevista com o Demônio (2024)

Atualizado: há 1 dia


 CRÍTICA SEM SPOILERS

Um dos longas de horror mais aguardados do ano finalmente chega aos cinemas brasileiros, e, com ele, a expectativa do público de que o filme seja realmente assustador. Entretanto, é importante estar ciente desde já de que este não é um filme direcionado aos amantes do terror convencional, carregado de jump scares e/ou cenas aterrorizantes. Na verdade, Entrevista com o Demônio está muito mais para um suspense com elementos de falso documentário e found footage capaz de desenvolver tensão e uma sensação angustiante de que algo muito ruim está para acontecer. E nessa missão o filme acerta em cheio.

A história do longa centra-se em Jack Delroy (David Dastmalchian), um apresentador de um talk show dos anos 70 chamado "Night Owls" (Corujas Noturnas), que após uma longa pausa/afastamento devido ao falecimento de sua esposa, luta para recuperar a audiência do seu programa. Prestes a ter seu programa cancelado pela emissora, Jack coloca suas últimas cartas na mesa prometendo um programa inesquecível para o especial de Halloween de 1977. O que Jack, o público e nem mesmo seus convidados imaginam, é que a noite está para se transformar em um desastre repleto de eventos sinistros, colocando em risco a vida de todos ali presentes. Com uma premissa extremamente inventiva, capaz de fazer diversos espectadores se questionarem a respeito da veracidade da história contada (por sinal, totalmente ficcional), o filme introduz, em seus minutos iniciais, um contexto geral sobre os talk shows da época e acontecimentos sobre a vida de Jack Delroy. Essa introdução pode dividir e cansar parte do público por expor muitas informações de maneira didática até demais, porém se faz necessário para que tenhamos conhecimento de tudo que está por trás daquele fatídico dia.


Sem pressa de nos chocar ou de criar medo, o filme apresenta brevemente alguns dos convidados e a equipe do programa (e suas funções), preparando o terreno para o que está por vir. Mas é a partir da entrada da parapsicóloga June Ross-Mitchell (Laura Gordon) e de Lilly D'Abo (Ingrid Torelli), uma adolescente que foi a única sobrevivente de um suicídio coletivo em uma igreja satânica (tema do livro recente de Mitchell), que as coisas começam a realmente esquentar e tomar proporções inimagináveis.

O roteiro (premiado no festival de SITGES) da dupla de diretores australianos explora sabiamente o debate entre o que é real e o que é falso, apoiando-se no ceticismo e nos questionamentos de Carmichael Haig (Ian Bliss), um ex-mágico que agora se dedica em desmascarar charlatões. A partir da incerteza se aquelas ocorrências são planejadas ou não, a obra nos convida a analisar atentamente cada detalhe, e é exatamente isso que, surpreendentemente, nos deixa sucetíveis às eventualidades da trama, desenvolvendo aos poucos uma atmosfera sufocante que nos deixa na ponta da cadeira, ansiosos para saber o que irá acontecer. Mesmo durante os intervalos do programa, o espectador não é poupado das sucessivas calamidades que rondam aquele quadro deplorável da busca por audiencia a todo custo, pois o filme inclui diversos takes de bastidores (em preto e branco) que intensificam os nervos da equipe e do espectador progressivamente. Outro grande acerto da obra, é fazer com que nos importemos com aqueles personagens. Mesmo com um curto tempo de tela, todos são bem desenvolvidos e interpretados pelo sagaz elenco, que individualmente e coletivamente cumpre seu papel com primor. Destacam-se aqui Dastmalchian, que através de seu semblante indagativo e seu olhar enigmático nos envolve nas perplexidades de Delroy, e também Ingrid Torelli, uma das revelações do ano, nos oferecendo uma atuação magnética e cheia de camadas, interpretando sublimemente dois personagens distintos: uma jovem bem-humorada e por vezes até misteriosa, e um demônio cruel, ardiloso e provocador.


Toda a direção de arte e principalmente a premiada fotografia de Entrevista com o Demônio nos transportam imediatamente para o período setentista sem dificuldades, o que auxilia na imersão do espectador. Os irmãos Colin e Cameron Cairnes demonstram aqui uma aula de direção que não poderia vir em melhor momento para o cinema de horror. Ouso dizer que poucas vezes uma possessão demoníaca (e toda dubiedade envolta neste tema) foi tão bem conduzida em cena. Além de um controle absoluto das cenas e de toda a apreensão que antecede o clímax do filme, os diretores sabem exatamente para onde encaminhar o espectador, conduzindo nosso interesse e nossas expectativas com perfeição.


Ainda que distantes do sensacionalismo dos programas de televisão dos anos 70, estaríamos hoje de fato preocupados com o bem-estar dos convidados e do público? Embora chocante à primeira vista, até onde pode ir nossa busca por audiência diante de situações desconfortáveis, inflamadas e até mesmo trágicas? O longa se dispõe a questionar tais pontos como segundo plano, enquanto nos leva por curvas tortuosas de pânico e desespero. Definitivamente uma obra memorável que merece ser conferida em uma sala de cinema, afastada de quaisquer distrações tecnológicas, e se possível mais de uma vez. Ideal para quem busca por produções com uma história original e diferente de tudo que já vimos, este é um daqueles filmes que estarão facilmente entre os melhores do ano, visto que realiza com excelência aquilo que se propõe a realizar. Mais um belo exemplo de como é possível e imensamente atrativo fazer muito com pouco, afinal com um material brilhante em mãos, meia dúzia de atores competentes e um único cenário são o suficiente para prender nossa atenção do início ao fim.



NOTA DO CRÍTICO: ★★★★☆ Título Original: Late Night With The Devil Data de Lançamento: 04/07/2024 (Brasil) Direção: Colin Cairnes e Cameron Cairnes Distribuição: Diamond Films Elenco: David Dastmalchian como Jack Delroy

Ingrid Torelli como Lilly D'Abo

Laura Gordon como June Ross-Mitchell

Ian Bliss como Carmichael Haig

Rhys Auteri como Gus McConnell

Georgina Haig como Madeleine Piper Fayssal Bazzi como Christou Josh Quong Tart como Leo Fiske

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